quinta-feira, dezembro 20, 2007

João Pessoa entre Narciso e Dorian Gray (o tal texto do concurso...)

João Pessoa anda embriagada de sua formosura. Qual um Narciso seduzido por si próprio, e irremediavelmente preso à sua imagem refletida, a cidade se agarra às palavras que pintam sua beleza – mas esquece a beleza real por trás das palavras. E com isso corre o risco de, assim como Narciso, morrer afogada em sua própria imagem.

Gabamo-nos da cidade antiga sobre o rio; da orla aberta ao sol; da tanta sombra das árvores; da facilidade de ir e vir; de poder parar nos sinais de trânsito com os vidros abertos... Mas gabamo-nos de que, mesmo?

Meu olhar estrangeiro tem visto engarrafamentos e assaltos cada vez mais constantes; tem visto casas coloniais e modernistas virem ao chão, mortas de abandono e ganância. Minha pele tem sido ferida pela aridez dos bairros novos e pela desertificação das ruas centrais (eu não preciso de palmeiras estéreis espremidas em canteiros de avenidas; preciso é de gameleiras, em praças). Minha insônia piora com o verde virando cinza, nos vales do Jaguaribe e do Timbó, pouco a pouco cobertos de cimento, plástico e incúria. Minhas pernas não podem mais com as distâncias de uma mancha urbana que se espraia por rodovias bastante próprias a motores e rodas, mas não a pés.

Não, não é acaso, ou moda, que tantas pessoas abram mão dos espaços em que cresceram e viveram, e os troquem por esses simulacros deprimentes de cidade que são os shoppings e condomínios fechados – é a cidade que tem ficado dura.

O tempo está passando e corroendo a face da João Pessoa real. Porém, como se ela fora um Dorian Gray às avessas, sua imagem permanece sedutora nos discursos do senso comum, da imprensa, dos corretores imobiliários e dos agentes de turismo. Afinal, como vendê-la senão enquanto última capital idílica do Nordeste?

Cumpre escolher vê-la sem máscaras. Cumpre viver o desafio de sair do torpor insípido em que nos metemos, e usar da reflexão crítica aparentemente amarga para provar a fertilidade agridoce da ação. Ou então esperar, e assistir a este Dorian Gray de concreto, cerâmica e asfalto terminar por se transformar num cadáver desfigurado – mas com um retrato eternamente belo.

7 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Tecla de aplauso ativada!
=D

quinta-feira, dezembro 20, 2007 9:21:00 PM  
Anonymous Anônimo said...

muito bom, rapaz. :)
o 1º lugar foi mesmo melhor do que isso?

sexta-feira, dezembro 21, 2007 4:59:00 PM  
Anonymous Anônimo said...

e eu tenho mais pavor do dorian gray de cerâmica do que do de pastilha porcelanizada.

sexta-feira, dezembro 21, 2007 5:01:00 PM  
Anonymous Anônimo said...

Talvez o primeiro tenha sido menos engajado...

domingo, dezembro 23, 2007 1:11:00 AM  
Blogger Fernando Galvão said...

Parabéns pelo texto! Concordo com muita coisa no texto. :)
Abraço.

quinta-feira, janeiro 03, 2008 2:54:00 PM  
Blogger Bia Cagliani said...

com certeza o 1º prêmio foi pra algum babão sem olhar crítico!

:D

quinta-feira, janeiro 10, 2008 7:19:00 PM  
Anonymous Anônimo said...

Quando digo "engajado", me refiro ao estilo do texto e não à postura do autor, que obviamente (tendo em vista o objetivo desejado junto ao público)deve ser crítico e engajado. Além disso, alguém crítico e engajado pode, também, escrever um bom texto sem muito "engajamento".

domingo, janeiro 13, 2008 11:19:00 PM  

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